Ética e Estatística: desafios éticos em tempos de crise
(Continuação do INFOCONRE-2 nº 10)
Jorge Miranda de Almeida 1
José Ronald Noronha 2
A ética deve ser a base de toda profissão,
na do estatístico ela deve ser
o fundamento, pois, partindo do pressuposto
que a objetividade com que
os estatísticos utilizam a metodologia
e analisam os dados obtidos não são
isentos de intencionalidades, entendendo
que a objetividade pura só é
possível no mundo ideal e numa perspectiva
conceitual e descritiva. Considerando
a carga ideológica, política,
afetiva, existencial, social e cultural
do estatístico, qual é a interferência
dessas variáveis na leitura,
análise, interpretação, construção,
diagnóstico e exposição dos resultados?
Considerando que a escolha dos
critérios utilizados na metodologia já
carrega uma carga consciente e inconsciente
de intencionalidade, qual
é a isenção da pesquisa? E considerando
ainda que a consciência do leitor,
ouvinte, telespectador é fortemente
influenciada pelos resultados das
pesquisas e como elas são utilizadas,
como utilizar a estatística sem
comprometimento com a ética? Qual
é a contribuição da estatística na
construção da cidadania entendendo
essa ciência como capaz de contribuir
na construção da consciência
individual e coletiva de um povo?
Essas antinomias evidenciam a gravidade
e ao mesmo tempo a urgência
em se discutir e assumir a ética na
sociedade hodierna como imperativo
para a superação dos antagonismos
que negam a própria condição humana para a maioria dos seres humanos
do planeta. No interior da barbárie
existente é possível outra alternativa
para sua superação exterior à ética?
E em que medida a ética seria capaz
de superar essas contradições? De
que maneira a estatística contribuiria
para superar essa situação?
Após a colocação do problema é necessário
precisar o que é ética e qual
é o seu alcance uma vez que muitos
acadêmicos e profissionais das mais
diversas especialidades utilizam indistintamente
ética, moral e direito, mas,
o senso comum já ensina que nem
toda ação que é moral é necessariamente
ética, bem como nem toda ação
legal é ética, sendo suficiente o exemplo
que o latifúndio no Brasil é legal,
mas, não é ético uma vez que ele exclui
da participação da terra, milhões
de brasileiros que vivem em situação
de risco social, ou vulgarmente, nas
ruas, estradas, palafitas, favelas, etc.
Aristóteles já ensinava em sua Ética
a Nicômaco que não se estuda ética
para saber o que é ético, mas para
tornar o homem ético. Wittgenstein,
filósofo contemporâneo retoma essa
perspectiva ao afirmar no Tractatus
Logico-philosophicus “a ética não é conhecimento.
Seu objetivo não é a verdade,
mas aquilo que é bom. A ética
não pode ser puramente teórica”. Dessa
forma, concordando com os filósofos,
a ética não consiste em uma
suma de proposição, ou de códigos
normativos, consiste fundamentalmente em assumir em primeira pessoa a
responsabilidade perante ações capazes
de dignificar a existência da pessoa
humana. A responsabilidade perante
o outro e o destino do mundo é
a condição necessária para se evitar
mais uma concepção de uma ética
burguesa ou baseada na retribuição da
justiça divina.
A responsabilidade me conclama
a agir em benefício da qualidade da
minha existência e me compromete
diretamente com a existência do outro.
Não existe uma verdadeira subjetividade
fechada e alienada em si
mesmo. O pathos da Ética é a ação,
visa a um agir, esta ação supera a
subjetividade do em si e estabelece
o compromisso maior da ética, uma
vez que a responsabilidade não é um
simples atributo da subjetividade,
como se esta existisse já em si
mesma, antes da relação ética. A
subjetividade não é um para si: ela
é, mais uma vez, inicialmente para
outro... ele não está próximo de mim
no espaço, ou próximo como um parente,
mas que se aproxima essencialmente
de mim enquanto me sinto
– enquanto sou responsável por
ele... eu próprio sou responsável pela
responsabilidade de outrem... a subjetividade,
ao constituir-se no próprio
movimento em que lhe incube ser responsável
pelo outro, vai até a substituição
por outrem. Assume a condição
– ou a incondição – de refém. A
subjetividade como tal é inicialmente
refém; responde até expiar os outros...
(LÉVINAS, 2000, p. 88).
Lévinas seguindo a análise empreendida
por Kierkegaard em Obras do
Amor quanto à importância da ética
como filosofia primeira, assumindo a
dimensão da responsabilidade como
cuidado perante a condição existencial
do Outro como fundamento da minha própria dignidade, que se apresenta
como subjetividade encarnada,
comprometida e atuante na história.
Enquanto na perspectiva ontológica o
eu deve subsumir na universalização
do conceito, na ética o si mesmo é
responsável em primeira pessoa pela
construção (ou não) do sentido do
mundo.
O filósofo lituano radicaliza:
Sou eu que suporto outrem, que
dele sou responsável. Vê-se assim
que, no sujeito humano, contemporânea
de uma sujeição total,
se manifesta a minha primogenitura.
A minha responsabilidade
não cessa, ninguém pode
substituir-me. De fato, trata-se de
afirmar a própria identidade do eu
humano a partir da responsabilidade,
isto é, a partir da posição
ou de-posição do eu soberano na
consciência de si, deposição que
é precisamente a sua responsabilidade
por outrem. A responsabilidade
é o que exclusivamente
me incumbe e que, humanamente
não posso recusar. Este encargo
é uma suprema dignidade do
único. Eu, não intercambiável, sou
eu apenas na medida em que sou
responsável. Posso substituir a
todos, mas ninguém pode substituir-
me. Tal é a minha identidade
inalienável de sujeito. É precisamente
neste sentido que Dostoievsky
afirma: “somos todos culpados
de tudo e de todos perante
todos, e eu mais do que os outros”
(LÉVINAS, 2000, p. 88-93)
Mas, afinal o que é ética? A ética
é toda ação que promove a dignidade
humana ou o bem comum. Tem
duas variáveis que na tradução para
o latim através de Cícero com o equivalente
a moral, trouxe muita confusão.
É preciso esclarecer Ethos
(com épsilon) designa costume e
Aethos (com eta) designa o modo
próprio, a moradia, o lugar onde se vive, o caráter, o modo de ser no
mundo. A este segundo, determinamos
como ética. Segundo o filósofo
austríaco Wittgenstein “a ética é a
investigação do sentido da vida, ou
do que torna a vida digna de ser vivida”.
A ética é a condição do mundo,
pelo menos, a condição de um mundo
fraterno e solidário, nesse sentido
é a condição capaz de superar a
barbárie instaurada no atual estágio
da civilização.
Segundo Hans Jonas na obra O
Princípio Responsabilidade “no caso
da ética é preciso dizer que ela tem
de existir. Ela tem de existir porque
os homens agem, e a ética existe
para ordenar suas ações e regular seu
poder de agir. Sua existência é tanto
mais necessária, portanto, quanto
maiores forem os poderes do agir que
ela tem de regular” (HANS HONAS,
2006, p. 65). A questão ética é mais
profunda do que concebe Hans Jonas,
não basta que a ética exista, é fundamental
que ela seja assumida em primeira
pessoa como desenvolvem
Kierkegaard e Lévinas, muito mais profundo
do que a concepção da ética
pautada na intersubjetividade como
pensa Martin Bubber, a ética é fundamentada
na gratuidade da responsabilidade
que garante o exercício
inalienável da alteridade.
Penso que a reflexão entre ética e
estatística poderá contribuir para que
cada estatístico ao ler este ensaio
possa refletir sobre a relação entre
ética e estatística, mas fundamentalmente,
possa refletir sobre seu si
mesmo, sobre sua situação existencial,
sobre como a profissão exercida
poderá contribuir ou não para que a
sua existência tenha realmente um
sentido e um significado no interior
da história dos homens. Penso que
não existe diferença entre existir autenticamente
e tornar-se ético, pois,
existir autenticamente é ser ético e
a ética só é ética quando se traduz
em atos que dignificam a própria
existência Segundo Kierkegaard: “A
ética se concentra sobre o indivíduo singular e do ponto de vista ético a
tarefa de cada indivíduo é de se tornar
um homem completo, como é o pressuposto
da ética que cada um tem
desde o nascimento a possibilidade de
concretizá-lo” (KIERKEGAARD, 1993,
p. 449). A perfeição do ser humano não
é um estado que será atingido no final
da história, mas consiste em viver
como homem, em assumir-se como
homem e neste assumir-se carregar
nos ombros a responsabilidade do
mundo, como se a salvação ou perdição
da humanidade dependesse apenas
de seus próprios atos.
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1 Jorge Miranda de Almeida é Doutor em Filosofia pela Pontificia Università Gregoriana, em Roma, Itália.
Professor Adjunto de Filosofia do DFCH – UESB-Bahia. Co-autor do livro Kierkegaard publicado pela Editora
Zahar (2007); organizador do Festschrift em homenagem a Álvaro Valls intitulado Soren Kierkegaard no
Brasil, publicado pela Editora Ideia (2007); e autor do livro Ética e Existência em Kierkegaard e Lévinas,
publicado pela Editora Edições UESB, 2009. Autor de diversos artigos na área de ética, ética e responsabilidade
social, filosofia e direitos humanos, filosofia da existência, filosofia e cinema.
2 José Ronald Noronha Lemos é professor de Estatística, Presidente da Sociedade Brasileira de Estatística,
Vice-presidente do Conselho Regional de Estatística da 2ª Região do Rio de Janeiro – CONRE-2ª.
Especialização em Docência Superior, Economia e Amostragem, tendo exercido vários cargos de chefia no
IBGE, Consultor da CONSULPREV.