Sobre o texto Publicação de Pesquisa Eleitoral veiculado no site da ABEP
(http://www.abep.org/novo/
Content.aspx?ContentID=425)

O CONFE - Conselho Federal de Esta- tística vem através desta carta aberta protestar, ressalvando o direito das ações cabíveis, contra o clamoroso ato de des- respeito ao Decreto Federal Nº 62.497 de 01/04/1968 que regulamenta a Profissão de Estatístico no Brasil, tanto por parte da instituição ABEP, quanto por parte da CESOP através dos professores Dra. Rachel Meneguello e Dr. Clécio da Silva Ferreira.
Citando o primeiro parágrafo do texto da ABEP: “Este documento foi elaborado e desenvolvido com a colaboração e orientação acadêmica do CESOP – Centro de Estudos de Opinião Pública da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas (SP), a partir de solicitação da ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa”.
É lamentável que os dois professores, acima referidos, nenhum deles registrado no sistema CONFE /CONREs, publiquem regras superficiais de fazer amostragem num site empresarial e comercial, portanto, não científico e não acadêmico. Inexplicável que os professores considerem que seja possível transferir através de “receitas” a responsabilidade e a complexidade infe- rencial da aplicação da técnica de amos- tragem que, como é do conhecimento público, faz parte do exercício da profissão de Estatístico.
É inaceitável que professores de con- ceituadas Universidades do País possam admitir que um assunto técnico, de tama- nha importância e envergadura, seja transmissível num texto pequeno e simpli- ficado como o veiculado no site da ABEP.
Ainda mais, quando se considera que a prestigiosa Universidade envolvida mantém curso de Bacharelado em Estatística em seu Departamento de Matemática e Estatística, contendo em sua grade curricular a disciplina obrigatória de Amostragem no 5º ou 6º período. Sua respectiva carga horária é de 6 horas semanais durante um semestre, isto depois de se concluir 3 semestres de cálculo diferencial e integral, um semestre de estatística, um semestre de cálculo de probabilidades e um semestre de inferência estatística.
Dada a importância da técnica de amostragem na formação do profissional Estatístico, os cursos de Bacharelado no País costumam acrescentar em suas grades duas disciplinas de Amostragem I e II. Portanto, trata-se de tema especializado na formação profissional, fato que os referidos professores certamente não desconhecem, apesar de que nos seus profícuos currícula veiculados na plataforma Lattes, não se encontre qualquer menção de experiência docente sufi- ciente na disciplina de Amostragem pro- priamente dita. Além do mais, infeliz- mente, sentimos falta de referência a livros de Amostragem na estranha e extensa bibliografia anexada ao final do texto.
É triste constatar que expressões comer- ciais como “amostra representativa” e “em- pate técnico”, ambas sem respaldo teórico, tenham migrado do vocabulário impreciso dos negócios das empresas de pesquisas para o âmbito acadêmico da Universidade. Gostaríamos que os senhores professores apontassem uma bibliografia de cunho científico que mencione tais expressões, somente uma. É doloroso constatar no texto a tentativa de explicação do padronizado e enganoso intervalo de confiança, “2 pra lá e 2 pra cá”, apelidado de Intervalo Bolero, totalmente inverossímil.
O CONFE, que vem procurando me- lhorar a qualidade técnica das pesquisas eleitorais no País promovendo discussão e denunciando os graves equívocos, se vê perplexo pelo desserviço que esses pro- fessores prestaram ao conhecimento téc- nico-científico reforçando as tolices que vêm se cristalizando em nossa sociedade, pelos relatórios das Empresas de Pesquisa e divulgados pelos meios de comunicação. Citando a última frase do segundo parágrafo do mencionado texto da ABEP:
“O seu propósito fundamental é o de tornar transparentes os critérios e fundamentos teóricos da pesquisa eleitoral, bem como seu uso pelas empresas de pesquisa no momento de sua realização”.
De um lado os professores da CESOP acreditam que podem ajudar leigos ditando regras de matéria especializada sem a indispensável base técnica, e de outro, a ABEP possui inabalável e constante credo que através da difusão das “regri- nhas”, possa capacitar seus empresários em técnicas de amostragem.
Os senhores da ABEP insistem em banalizar a aplicação dos métodos esta- gativa do profissional estatístico que é capa- citado para isto. A encomenda à CESOP e a publicação de regras superficiais da amostragem para uso “pelas empresas de pesquisa no momento de sua realização” é um reconhecimento tácito que os donos das empresas carecem da experiência do suas atividades.
No entanto, a amostragem é uma téc- nica presente e quase constante nos projetos de uma empresa de pesquisa de mercado. Um dono de empresa não precisa dominar os conhecimentos técnico-científicos aplicados em suas atividades, mas está obrigado a contratar profissional que os conheçam e que detenham competência (poder legal para a prática do ato). Um proprietário de firma de Engenharia Civil não precisa ser Arquiteto ou Engenheiro, mas precisa contar com engenheiros e arquitetos para realizar suas atividades; ao dono de uma Clínica de Saúde não se exige que seja médico, mas que tenha pro- fissionais da Área de Saúde para funcionar, e assim por diante.
As empresas de Pesquisa de Mercado abrangente, quase universal e não podem prescindir do profissional do mercado pes- quisado, que é contratado como consultor e trocado nos próximos projetos depen- dendo do mercado estudado. A carac- de pesquisa confere a sua atividade o caráter de Consultoria quase que Ecumênica. Só um conhecimento científico é perene nas pesquisas de mercado, os métodos estatísticos aplicáveis na esmagadora maioria dos casos. Na pesquisa política é obrigatório e nas demais é imprescindível contar com um estatístico.
Essa é a realidade que a ABEP tenta camuflar, a imperiosa importância dos métodos esta- tísticos na atividade das empresas de pes- quisa de mercado e consequentemente a sua total dependência técnica do pro- fissional estatístico.
Como aplicar? métodos estatísticos tão frequentes nos projetos de pesquisa de mercado e nas pesquisas sociais, tais como: análise de dados categóricos, métodos não paramétricos, escalas de atitude, mapas de preferência, escalas multidimensionais, hedônica, de magnitude e muitas outras.
Como implementar? métodos de segmen- tação com análise de conglomerado, com CHAID, com interação automática Qui- Quadrado. Como interpretar? análise do discriminante, modelos desbalanceados ou parcialmente desbalanceados, conjoint analysis , análise da correspondência ou em diversas outras. Como? se os senhores desconhecem o arcabouço teórico que repousa cada método e, com isso, colocam em risco todo e qualquer tipo de conclusão, desde a resultante de pesquisas de menor envergadura, até aquelas que comprometem o comércio, o próprio conhecimento científico e o futuro do país. Só há uma resposta para todas estas indagações: contratem estatísticos e desistam de transmitir receitas levianas e inconsequentes.
Mas, os Senhores não se convencem deste fato, mais que óbvio, e procuram por todos os meios se sobrepor à lei e à lógica. Os senhores deveriam administrar suas empresas e deixar as técnicas estocásticas para os profissionais da área, que foram devidamente treinados para isto.

Atenciosamente, Luiz Carlos da Rocha
Vice-Presidente do CONFE
(reg.3936)